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A arte de negociar com o tempo e com a vida — um TDAH maduro

  • Foto do escritor: Lucas Ávila
    Lucas Ávila
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

Inspirado na minha leitura — pessoal e clínica  — do título de Russell Barkley, Vencendo o TDAH no Adulto. 


Buscando trilhar um caminho alternativo ao didático tradicional e transdiagnóstico, tomei a decisão de me debruçar sobre estudos que buscassem expandir o diálogo até um novo destino: o território emocional, relacional e identitária em que o TDAH ocupa na vida de um adulto.


Como uma rede viva e muito bem arquiteta pela cultura e linguagem, o transtorno já é capaz de evocar, por si só, questões relacionadas a atenção, foco, organização e procrastinação. Embora tais temam devam ser, de fato, considerados, a prática clínica torna evidente um sofrimento que não advém apenas da dificuldade cognitiva, mas de seu encontro com a forma como a pessoa aprendeu a existir no mundo. 


Existe um mito bastante persistente de que o TDAH costuma ser barulhento, visível e hiperativo… O que nem todos sabem é que muitos dos adultos diagnosticados com TDAH não foram crianças agitadas. Em uma perspectiva totalmente inversa, elas foram crianças que tiveram de aprender a se adaptar rápido demais.





O senso comum é bastante ágil em nos educar sobre o medo de errar. Aprendemos que chamar a atenção pode ser perigoso, afinal, observar é mais seguro do que agir. No entanto, a quietude do corpo não se sobressai a da mente. Aqui falamos de uma agitação interna, de um esforço sem medidas em prol de manter a vigilância e o controle devidamente ativos. 


Um cérebro com TDAH não falha por incapacidade ou por não saber o que fazer, mas pela sua dificuldade em gerenciar tempo, espera e impulso. O seu maior desafio está em sustentar a execução em longo prazo, especialmente quando o contexto envolve:


  • Recompensas tardias;

  • Pouco engajamento/reforço emocional arbitrário/social;

  • Tarefas burocráticas, repetitivas ou possivelmente, tediosas;


Em meio à busca incessante por estratégias e soluções mentais, a autocobrança surge como uma aposta de aliança. 




Se eu não eu tenho controle, preciso me exigir mais.

Autocobrança = Autocontrole.




Essa é uma formulação de regras bastante clássica que nos atravessa a nível de controle verbal, inclusive em casos que não correspondem a um diagnóstico de TDAH. À medida que a autocobrança cresce, a ameaça interna também escala, o que estimula a reprodução de um treinamento altamente reforçado ao longo da evolução da espécie: quando estamos sob ameaças, evocamos comportamentos de luta ou fuga. 


Os prejuízos de um TDAH não tratado na idade adulta avançam para além de um problema de atenção, uma vez que ele passa a se apresentar sob o caráter de um transtorno executivo. Seus danos comumente implicam em: 


  • Falta de controle e/ou inibição de impulsos;

  • Dificuldade no gerenciamento de gratificações quando não imediatas;

  • Carência de regulação emocional diante de situações adversas e/ou desagradáveis;

  • Desorganização e falta de direcionamento com o tempo.


Um cérebro em vigilância constante não repousa o suficiente para sustentar o foco em largo alcance.



O que é futuro se torna abstrato, distante demais.

O autocontrole vira uma ilusão, um esforço exaustivo que na maioria das vezes acaba resultando em culpa. 

O planejamento perde a força e o espaço.


O TDAH adulto não é falta de inteligência, mas a dificuldade em usar o que se sabe no que momento em que se precisa




O estabelecimento de uma rotina, psicoterapia, medicação e prática regular de exercícios físicos são pilares fundamentais para a regulação de uma vida mais consciente, tolerante e paciente.


Havendo uma remissão de sintomas, as boas práticas tornam-se ainda mais fáceis de se endereçarem a nível de execução: 


  1. Pausar e perceber os pensamentos antes de agir — ganhar tempo é fomentar autocontrole;

  2. Externalizar e escrever suas demandas — memória não é lugar de tarefas, mante-las nesse lugar dá margem para associações que podem não ser produtivas;

  3. Quebrar o futuro em pequenas partes — estabeleça micro metas dentro de grandes objetivos e trabalhe com recompensas para cada uma delas. Perceba-se avançar;

  4. Atentar para a emoção na consequência em fazer o que precisa — pare de se limitar ao desconforto imediato em fazer o que não quer. Descreva mentalmente as consequências desejadas e crie a motivação necessária para sustentar suas responsabilidades e a pessoa que você quer ser quando as cumprir. 


O seu TDAH não precisa ser curado, ele precisa ser compreendido e regulado. Para muitos adultos (com ou sem o diagnóstico) a dor não está na distração em si, mas no ciclo de comparação, culpa, vergonha e autocrítica que emergem na relação consigo mesmo. 


Quando a vida se regula sob a necessidade de uma grande performance, todo e qualquer desafio é prova de inadequação. 



Compreender o seu TDAH é o que te permite aprender a negociar com o cérebro do jeito que você precisa, e não da forma como te foi imposto ou ensinado.


É sobre realinhar expectativas com o tempo, com a motivação e com o mundo — transmutando diretamente na forma como você se relaciona, como você trabalha e como você ama. 




 
 
 

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