Carnaval: entre o grito da carne e o silêncio da rotina
- Lucas Ávila
- 19 de fev. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025
Mergulhando na etimologia da palavra, carnaval vem do latim "Carnis Levale", e pode ser traduzido como “retirar a carne”. Apesar das imagens de glitter, batuque e multidão que a palavra evoca, historicamente ela emergiu de um movimento do cristianismo que tinha como objetivo uma única função: controle.
Sob o pretexto de preparo para a quaresma — os quarenta dias que antecedem a páscoa cristã — o carnaval foi promovido pela Igreja como um período de permissividade consentida. De contato com os prazeres mundanos em troca da contenção necessária para celebrar a ressurreição de cristo que viria a seguir.
Mas o carnaval não é restrito ao contexto bíblico, apenas. Suas raízes também se enredam em outras festas da antiguidade que, apesar de muitas discorrerem em prol da celebração da carne, também promoviam o conceito de liberdade. O momento em que a inversão dos papéis de ordem social era acessada em resposta à repressão do povo e seus desejos.
E por que tanta volta ao passado?
O fato é que herdamos muito desse contexto. A ideia de que o ano só começa depois do carnaval não é à toa, e talvez diga muito mais sobre o nosso país do que imaginamos. Como se o carnaval fosse o último respiro antes da engrenagem voltar a rodar — o último suspiro de quem trabalha demais, ganha de menos e ainda é cobrado por desempenho. Para muita gente, o carnaval é o único feriado verdadeiramente coletivo. O único momento em que se pode esquecer as exigências do mundo e lembrar que corpo também é lugar de luta.
Sendo assim, é bastante comum (e até esperado) que após dias de fanfarra você venha a experimentar não apenas uma ressaca orgânica de tudo que consumiu, como da falta de rotina, de determinados hábitos e, sobretudo, de compromissos. Tanto os seus consigo mesmo, quanto com os outros.
De qualquer forma eu preciso te lembrar que o ano já começou e foi no primeiro de janeiro. Seus problemas não deixarão de existir com o glitter que escorre no banho depois do último bloquinho. Muito pelo contrário, eles estarão no seu aguardo na quarta-feira de cinzas.
Em uma certa instância, o retorno à rotina pode ser desconfortável sim, mas não precisa ser encarado como um castigo. Dá pra curtir o carnaval de forma consciente, sem compensações exasperadas e uma celebração verdadeiramente viva. Uma festa sobre a VIDA.
Organize seu circuito, escolha os seus dias de festa e pessoas para exorcizar seus demônios. Não confira a seus amigos o papel de zelar pelo seu bem-estar, eles também querem se divertir. Seja responsável, use camisinha, se alimente e beba muita água. Respeite seus limites.






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